Do Caminho Novo à Velha Avenida (Armando Fernandes Aguiar Mamão/Toinho Gomes/Carioca)
Fonte: 4º GAC L Mth
Identifiquei-me com eles, apropriando-me com entusiasmo para aplicá-los no Centro de Comunicação Social do Exército (CCOMSEX), ao longo de cinco anos, última organização militar que comandei em minha carreira.
Esses princípios se encaixam com perfeição aos pilares mestres da carreira militar. Ajudam a fortalecer os homens e as mulheres das armas na dedicação integral ao sacerdócio de oferecer a vida em servidão à sociedade da qual são pinçados por vocação.
A confiança, em dupla mão, se caracteriza pela segurança de que as decisões de ordem institucional e pessoal terão como alicerce análises amparadas em estudos acadêmicos e militares, discussões serenas, discordância leal e disciplina intelectual, quando proferida a decisão.
O delegar, como apêndice da confiança, se apresenta na medida em que uma formação cultural semelhante, com experiências semelhantes, em geral indica decisões similares. Sejam elas promovidas pelo chefe, sejam pelos subordinados.
Desafoga o topo da cadeia de comando, ao permitir escalonar as ações em níveis de responsabilidade, evitando a antiquada centralização do poder. Fragilidade emocional que não se admite em tempos modernos.
O presumir a boa fé aparece no relacionamento do superior para com o subordinado quase sem percebermos. Intui-se, por meio dele, a certeza de que os atos e omissões presentes no processo de planejar, decidir e executar foram realizados com total apreço aos princípios mais caros da lealdade, hierarquia e disciplina.
Acrescentei a esse pensamento, herdado do velho general, o conceito: aceitar o erro! Pois, como dito por Benjamin Disraeli, “não há aprendizagem como a que dá a adversidade.”
Assumindo que a ocorrência do erro não se produziu em afronta àqueles princípios iniciais, mas por transparente e liberta intenção de concorrer para o acerto e conquista do objetivo proposto.
Não obstante, é pressuposto inarredável qualificar os agentes por seu amadurecimento na vida pessoal e profissional, ademais de sua condição hierárquica nas engrenagens da instituição.
Quanto mais engelhado pelas pelejas da vida castrense, mais o profissional das armas incorpora a responsabilidade institucional às suas decisões. Afinal, “a capacidade de aceitar responsabilidades indica a medida de um homem” (Roy L. Smith).
Essas decisões trazem, ao seu costado, o princípio bíblico do livre arbítrio que, a meu julgamento e em tradução rasa, significa escolher suas ações em função de sua vontade, assumindo a responsabilidade por essas deliberações.
Revela-se, portanto, a importância da autoconsciência do militar para ponderar sobriamente o seu encargo funcional e a energia que a sua ação provocou, para o bem ou para o mal, com reflexos na organização que lhe exige respeito, fidelidade e obediência.
Porquanto as instituições militares sofram a ação saudável ou eventualmente depreciativa de seus integrantes, elas serão tanto mais firmes e coesas quanto mais incorporem as boas práticas de gestão e reforcem os seus atributos motivacionais basilares juntos aos seus obreiros incansáveis: os soldados em sua grandeza militar!
Que assim seja!
Paz e bem!
sabem que tudo é possível.”
(David Rousset)
Em 1951, a cientista política Hannah Arendt lançou a sua icônica obra Origens do Totalitarismo (Companhia de Bolso, 2020), um ensaio a ser rotineiramente compulsado pelos analistas sociais e políticos que desejem aprofundar conhecimento sobre o tema. O que aconteceu? Por que aconteceu? São questões ainda hoje formuladas para total compreensão da explosão dos regimes totalitários (nazismo, fascismos e comunismo) que tanto impactaram o século 20, com reflexos sentidos muito depois das suas derrocadas.
Passados cerca de 70 anos do seu lançamento, percebe-se o ressurgimento de uma onda de governanças com tendências autoritárias — o novo totalitarismo. Ela emergiu em alguns países, particularmente no mundo ocidental desmemoriado quanto ao seu perigo, tornando-se indispensável acompanhar cuidadosamente esses processos.
Ao lançar-se luz em alguns aspectos propostos por Hannah, é possível analisar a dinâmica do método de conquista do poder. E, como consequência, propô-los à avaliação dos leitores, emulando-os a comparar os fatos históricos com casos concretos de nosso tempo. Os movimentos totalitários, com desfaçatez não ruborizada, abusaram das liberdades democráticas, objetivando suprimi-las. Na Alemanha, por exemplo, esteve suportado em base legal, por valer-se do modelo eleitoral vigente pré-tomada do poder.
A autora demonstrou a paulatina substituição do sistema de classes, vigentes no século 19, pelo nascedouro das massas amorfas e manipuláveis no albor do século 20. O conceito da massa foi formulado pela articulista a fim de definir pessoas que, em face de suas indiferenças ou impossibilidades de toda ordem, não podiam integrar uma organização com base em interesses comuns (partidos políticos, organizações profissionais ou sindicatos de trabalhadores).
Compunham-se, em sua maioria, de pessoas neutras, não filiadas a um partido político e que raramente exerciam o direito ao voto na plenitude. Ou por abdicarem de votar, onde esse dever não era obrigatório, ou por votarem por intimação legal, onde lhes era obrigado.
Nos últimos anos, essas massas espelham pessoas descrentes das promessas políticas, que consideram estúpidos até os mais respeitados membros de sua comunidade, bem como perniciosas e desonestas todas as autoridades constituídas.Talvez seja um reflexo do acesso imponderado à informação (promovido em grande parte pelas mídias digitais), que lhes faz acreditar que o seu saber é suficiente para contra-argumentar os mais preparados opositores de ideias.
Destaca ainda a ensaísta que o movimento totalitário se estruturou a partir de pequenos partidos, com ideias nacionalistas em sua gênese. Era “um partido formado por gente obscura e meio louca”, afirmava Hannah Arendt ao avaliar o movimento nazista. Não sendo uma estrutura monolítica, já que formado por agrupamentos não convergentes ideologicamente, o princípio da liderança foi estabelecido pelo culto à personalidade de um mito, erigido na violência e convencimento.
Esses líderes tratavam como mentira todos os fatos com os quais não concordassem ou pudessem vir a discordar, estabelecendo uma ficção oficial como verdade incontestável. As massas os aceitavam e se sentiam representadas por essas figuras. Tinham sido abandonadas ao esquecimento e submetidas a subordinação abjeta à “elite” em priscas eras. O livro nos permite imergir em denso estudo sobre os temas do antissemitismo, imperialismo e sobretudo totalitarismo, de forma que se torna impossível debulhá-lo aos leitores em poucas palavras,. Fica a promessa: voltarei ao tema mais adiante, com foco em outras ideias.
Paz e bem!
Salve o Marechal Emilio Luiz Mallet!
A cerimônia contou com a presença da presidente do Conselho Nacional dos Procuradores-Gerais (CNPG), do Presidente da Associação Nacional de Procuradores (CONAMP) Manuel Murrieta e do Procurador-Geral de Justiça Militar Antônio Duarte.
Também prestigiou o evento o governador Romeu Zema, o senador Antonio Anastasia e diversas autoridades do legislativo e judiciário locais.
Rodrigo Pacheco agradeceu pela homenagem e se mostrou muito grato pelo aprendizado alcançado quando de sua passagem como estagiário do MPMG.
Na última quinta-feira, eu e minha esposa, como de hábito, caminhávamos de manhã cedo. O sol maravilhoso de Brasília nos aquecia. O céu azulíssimo. O clima seco e uma brisa refrescante nos estimularam a aumentarmos o trajeto.
Da calçada víamos as mesas ao ar livre das cafeterias. Delicioso cardápio, servido em estruturas prontas para as exigências sanitárias impostas pela covid-19.
A mudança de percurso nos fez observar que na fachada de um prédio se destacavam duas bandeiras do Brasil penduradas na varanda, talvez revelando uma família orgulhosa de ser brasileira.
Muito legal! Seria bom que esse gesto fosse uma rotina em muitos outros lares. Afinal, símbolos unem coletividades, moldam comportamentos, emulam superações. E não olvidemos quão intenso são os desafios a serem superados em nosso país.
Uma pena! Fora de competições de futebol, quando os brasileiros se tornam os mais patriotas seres da terra, vestir-se de verde amarelo, cantar o hino nacional e enrolar a bandeira no corpo passou a ser gestual identificador de um grupo ideológico.
Não poderia ser assim. Os símbolos nacionais são de todos. São de negros, pardos, amarelos, brancos, qualquer cor de pele. São dos ricos, da classe média, dos remediados, dos que passam fome e dos que nem fome passam. São dos de direita, de centro, dos socialistas, dos de esquerda, dos sem coloração partidária.
Envergar o "auriverde pendão da minha terra" no intuito de marcar posição política é até admissível, mas se usado radicalmente tende a indicar uma apropriação indevida de um bem imaterial que pertence aos brasileiros.
No futuro, gostaria de observar outras bandeiras do Brasil penduradas em varandas e pensar: ali mora um brasileiro que se orgulha do seu país. Em quem ele vota? Não sei. Não importa. Não podemos caminhar como sonâmbulos rumo ao precipício, puxados pela mão de inescrupulosos.
Urge uma mudança de comportamento. Aplacaria a sede de enfrentamento político-ideológico de momento. "Diferenças não necessariamente significam conflito, e conflito não necessariamente significa violência" (Huntington). Somos todos um Brasil. Somos todos um único povo, uma única nação.
As divergências políticas precisam ser tratadas como divergências políticas, nunca como vinganças figadais que exigem o emprego da lei de talião. Ou pior, nenhuma lei, apenas a vontade irrefreável de títeres das bolhas digitais.
Paz e bem!
Otávio Santana do Rêgo Barros, General de Divisão R1
Uma historieta. Há mais de meio século, os deslocamentos militares eram realizados a cavalo. A tropa costumava fumar charuto ou cigarro de palha nas marchas hipomóveis administrativas.
O mais jovem oficial do Regimento de Cavalaria era responsável por picar o fumo de rolo e prepará-lo para seu comandante e alguns oficiais superiores.
Anos se foram, as cargas de cavalaria ficaram no passado, mas as tradições seguem vivazes nos homens de bota. Quando queremos alcunhar os mais jovens e inexperientes não titubeamos: Oh! Pica-fumo.
A formação militar se aperfeiçoou. A chegada dos egressos das escolas é comemorada nos quartéis, não pelo fato de que o aspirante será o responsável por picar o fumo dos superiores, mas em razão de o oficial trazer o oxigênio do profissionalismo e da renovação espiritual na crença de servir absorvidos na ACADEMIA MILITAR DAS AGULHAS NEGRAS (AMAN).
Após a conclusão da AMAN, equivalente ao nível superior, vem um período de aplicação dos conhecimentos. É um momento ainda de formação, embora, aos poucos, os encargos exijam mais competência e serenidade.
Dez anos após o recebimento da espada, o capitão é matriculado na ESCOLA DE APERFEIÇOAMENTO DE OFICIAIS (ESAO), similar ao mestrado, habilitando-se a exercer as funções de oficial intermediário.
O ciclo se reinicia com o aproveitamento do explorado no campo e na sala de aula em funções típicas, lá no corpo de tropa, para onde segue o maduro capitão.
Em curto espaço de tempo, a preparação para enfrentar um desafio de fôlego. Passar no concorrido concurso da respeitada ESCOLA DE COMANDO E ESTADO-MAIOR DO EXÉRCITO (ECEME), onde lhes são impregnados conceitos em nível estratégico e se lhes estimula a discordância leal pela troca fluida de ideias sobre a conjuntura política-militar. Iguala-se ao doutorado.
A ECEME é um divisor de águas para a oficialidade. Apenas a quarta parte das turmas de formação consegue diplomar-se.
Novo ciclo, e os oficiais com o estado-maior são enviados aos grandes comandos para assessorarem os generais na gestão operacional, administrativa e da logística militar. No ápice da carreira meritória, chega o momento do comando de batalhões, regimentos, grupos, parques e depósitos.
Nessa fase, alguns são selecionados para compartilhar suas experiências em outros países como instrutores, adidos militares, observadores ou comandantes de tropa de paz e até assistentes sêniores no comando de forças de países amigos.
Quase ao final da longa jornada, são indicados para os cursos de altos estudos de política, administração e estratégia na busca de uma visão holística da realidade brasileira e mundial.
Oficiais passam quase um terço de suas vidas profissionais em ambiente de aperfeiçoamento intelectual. São poucas carreiras que possuem esse perfil. Aplicam esses conhecimentos, nos dois terços restantes, em operações de Garantia da Lei e da Ordem (GLO), Operações Subsidiárias, Operações de Paz, Operações de Defesa da Pátria, dentre outras.
A promoção a general é feita por mérito e escolha. O processo avalia 35 anos da carreira do coronel proposto. Um dado aos leitores, de 400 Cadetes que se formam na AMAN, tão somente 16 recebem as estrelas de oficial general.
Eis a marcha vigorosa pela qual um jovem com 16 anos terá de enfrentar até ser escolhido, com cerca de 51 anos de idade, para a promoção ao mais alto círculo hierárquico. É um desafio sacerdotal.
Essa trajetória deve ser conhecida de todos, a fim de que equivocadas generalizações não tinjam de dúvidas a competência da oficialidade do Exército de Caxias.
O estamento militar está assestado na preparação dos seus recursos humanos, na defesa dos pilares da hierarquia e da disciplina, na lealdade à constituição e na certeza de que servidão maior não há do que sujeitar-se à coletividade em nome do Estado.
Os que promovem ressalvas ao Exército meditem sobre isso. Os erros e acertos devem ser contabilizados exclusivamente na caderneta de alterações do oficial responsável.
Sociedade, o corpo institucional do seu Exército está vigilante para cumprir as obrigações legais diante da nação com integral e obstinada abnegação. Tudo mais é afronta à racionalidade. Ou bisonhice de pica-fumo.
Paz e bem!
Otávio Santana do Rêgo Barros. General de Divisão R1
Desta forma, não restou caracterizada a prática de transgressão disciplinar por parte do General PAZUELLO.
Em consequência, arquivou-se o procedimento administrativo que havia sido instaurado.
Brasília-DF, 3 de junho de 2021
CENTRO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL DO EXÉRCITO
Em sua primeira edição, a revista MONTANHA! traz um resgate histórico dos feitos daqueles que ao longo dos anos, passaram pela Brigada de Montanha e contribuíram para a sua consolidação como única tropa do Exército Brasileiro vocacionada para o emprego nesse ambiente operacional. A revista apresenta ainda as organizações militares que integram a Brigada e destaca as principais atividades realizadas em 2020.
Nesse contexto, as relações entre a sociedade civil e o poder militar vêm sendo colocadas como aditivos aos desafios cotidianos.
O comportamento e a formação militares são prioritariamente cartesianos. Não obstante, nos últimos anos absorveram traços mais robustos das ciências humanas e sociais.
A Academia Militar das Agulhas Negras, escola de formação da oficialidade do Exército, como qualquer organização militar, é um mundo de quietude severa. Reina dentro de seus muros normas rígidas de comportamento com base na ética, na disciplina e na moral.
Não faltar à verdade. Não prevaricar. Não roubar. Fortalecer o espírito de corpo. Não abandonar companheiros feridos em campo de batalha e muitos outros “mandamentos” estão grafados a cinzel nas decenárias paredes de mármore da Real Academia. Quem disso destoa, não pode chamar-se de militar.
O professor Samuel Huntington, conselheiro de segurança no governo americano de Jimmy Carter, aponta a lealdade e a obediência como as mais altas virtudes militares. De fato, são atributos indissociáveis da cultura militar. Mas, segundo ele, quais serão os limites da obediência?
Essa obediência é incondicional? Ou se subordina às atribuições diretamente relacionadas com a atividade de exercer, a nome da sociedade, a violência institucional do Estado?
Em sua análise, Huntington certifica que as instituições democráticas americanas nunca geraram um vácuo de poder. Quase sempre o controle civil sobre o militar esteve claro no relacionamento entre esses dois atores sociais.
O vácuo, físico, intelectual ou moral, do agente controlador foi fator coincidente na história do desvio do soldado da sua atividade precípua. O que pode trazer o efeito colateral da corrupção lato sensu. Da corrupção moral, a genitora de todas as outras corrupções. Todas insuportáveis.
É importante que se consolide em nosso país a crença de que o profissionalismo militar está indelevelmente atrelado ao efetivo controle civil na defesa nacional.
Dentre os atores que atuam nesse processo, o posto honorífico de comandante supremo das Forças Armadas precisa ser respeitado por quem o exerce.
Só assim, quando houver a exigência de instalação de uma estrutura de guerra, seja ela interna ou externa, essa autoridade estará respaldada para definir as diretivas no nível mais alto da política de Estado.
Eventual interferência nos níveis subalternos do processo decisório não produzirá o efeito desejado. Será apenas “um manda o outro obedece” sem aprofundamento na liturgia e na missão dos respectivos deveres hierárquicos.
O que a sociedade brasileira espera dos militares de nossas Forças Armadas?
Os sistemas de preparo, emprego e ensino de cada uma das forças se adequaram a promover especialização dos seus recursos humanos, movidos por elevado senso de responsabilidade e atuando em ambiente de companheirismo essencial quando se aceita entregar a vida para sobrevivência Nação.
A unidade de comando, fundamental para o desempenho legal e imparcial dos comandantes, tem sido alvo de ataque aos pilares da hierarquia e da disciplina com possibilidade de rachar os círculos castrenses de forma vertical e até horizontal.
O agente político das Forças Armadas é o Estado. A estrutura hierárquica na qual as Forças Armadas estão inseridas tem no topo da pirâmide o Estado, suportado por seu povo e por suas leis.
À sociedade como um todo exigir-se-á firmeza de atitude para assegurar o dever implícito das Forças Armadas, clarificados no artigo 142, da Constituição Federal.
É preciso reforçar o muro que separa o estamento militar dessas pendengas políticas-partidárias-pessoais.
A segurança do Estado vem em primeiro lugar. Objetivos exógenos, pessoais ou ideológicos, que possam fazer fraquejar essa segurança, que ao fim e ao cabo também é uma garantia social, não devem ser perseguidos.
Como emulação: “O Brasil espera que cada um cumpra o seu dever” (Almirante Barroso, na Batalha de Riachuelo). Nós também!
Paz e Bem!
Otávio Santana do Rêgo Barros. General de Divisão R1
A ampliação da crise política será o destino inevitável do Brasil nos próximos meses? Dependerá de nossas atitudes como cidadãos.
Entretanto, é inquestionável que ela se encorpa diariamente, tendo entre suas principais causas o tribalismo digital que tomou de emboscada a nossa sociedade nos últimos anos.
Tucídides, autor da clássica obra A Guerra do Peloponeso (435 a.C), demonstrou que o desencadear de um conflito se dá à medida que os contendores deixam de avaliar com a razão e avançam emotivamente rumo à colisão de vontades, à busca da hegemonia. Os estudiosos da história geral alcunharam essa circunstância como “Armadilha de Tucídides.”
O professor Graham Allison, diretor do Belf Center for Science and International Affairs, em um estudo na Universidade de Harvard, elaborou uma lista com dezesseis situações, posteriores ao ano de 1500, nas quais estados em ascensão buscaram romper a supremacia pretérita de outros estados — reafirmando a Armadilha de Tucídides —, culminando com guerras que cobraram em sangue, economia e bem-estar social aos seus envolvidos.
Mostra-se compatível estabelecer um paralelo e identificar a mesma armadilha no nosso ambiente político, com possibilidade de irromper-se um conflito social de dimensão não avaliável em médio espaço de tempo, dada à polarização vigente e ao maniqueísmo que tomou conta de parte dos grupos antípodas (estados em disputa).
O projeto do professor Allison demonstra, ainda bem, que nem sempre se chega às vias de fato. Para se evitar o conflito, devemos pelejar firme e sobriamente já no atual momento.
Há poucos dias escrevi um artigo de título: A atitude profissional das Forças Armadas, no qual asseverei acreditar que o caminhar desse embate não se tornaria uma crise em nível institucional. Defendi que os sistemas de freios e contrapesos ajustaria a temperatura.
Não se passaram trinta dias, e a tromba d’água que se formou na cabeceira do rio do ambiente político, potencializada pela gestão sanitária e as investigações decorrentes, faz-me rever esse posicionamento e ponderar que a senda da institucionalidade está se tornando estreita com riscos de dificuldades mais adiante.
A ganância pela manutenção do status quo de poder, contrária aos princípios mais salutares da alternância de poder das democracias maduras, vem promovendo aflições em muitos estamentos da sociedade.
Intenta-se estabelecer uma ligação emocional entre as deliberações do Executivo e a Instituição de Estado: Forças Armadas. Mas não há exclusividade de ator principal. Do mesmo modo há uma interferência em outras instituições respeitadas por seu passado asseado e ajustadas à missão constitucional: Polícia Federal, Receita Federal, Diplomacia, dentre outras.
Algumas ações ou omissões do governo expõem essas organizações ao escrutínio crítico, com viés negativo, resultando como consequência uma possível repulsa da sociedade.
Não é aceitável, sob nenhum aspecto, transformar a centenária Instituição Exército Brasileiro, nascida nas ravinas dos Montes Guararapes pelo amálgama das três raças e detentora de altos índices de confiabilidade, em uma estrutura de apoio político pessoal.
Sempre se orgulharam, as Forças Armadas Brasileiras, de seu profissionalismo e servidão ao povo brasileiro. Continuarão se orgulhando, por certo.
Prontidão e Vigilância! esse é o lema. Substantivos sublinhados na intenção dos comandantes de ontem, de hoje e de sempre.
Construiu-se, nos últimos anos, uma base muito sólida de profissionalismo nos homens e mulheres de farda, cuja argamassa dificilmente será abalada.
As ideias de legalidade, legitimidade e estabilidade permanecem iluminando o caminho. E as Forças Armadas, ao toque diário de clarim na alvorada, reforçam a sua isenção racional.
Quanto ao caso do oficial-general que participou de carreata política, infringindo, em tese, a legislação disciplinar, tenhamos confiança na sobriedade temperada com firmeza de nossos comandantes.
Paz e Bem!